quarta-feira, dezembro 18, 2002

Pelo direito de ser excêntrico
(Sexta-feira, 13/12)

Já saí atravancada. Pensando, rápido, pensando... coisas agradáveis, desagráveis, indiferentes...
De tudo. De tudo.

Chuva. Fumar na chuva. Dificuldade para acender. Pensei nos vizinhos, na polícia. Estava fumando ainda quando o meu olhar encontrou-se no centro do olhar da velha que vinha a subir. Foi certo. Comecei a andar na direção delas, pois até então lá estava eu novamente parada na chuva (isso anda começando a virar coisa constante na minha vida, como já foi há alguns anos quando era mais solitária, mais estranha).

Ao lado da velha seguia ainda outra velha, dona de uma banca de revistas novas e usadas bem perto daqui. Ela conversa com minha mãe quando o acaso assim determina e minha única lembrança em particular em relação a ela é uma lembrança dos meus doze, treze anos, acho. Ou seja, há mais ou menos dez anos.

Havia uma garota aqui no prédio, que também estudava no mesmo colégio que eu e ia no mesmo "shopping". A probabilidade de nos tornarmos melhores amigas era enorme. E assim o foi por alguns (muitos, dentro do meu tempo de vida atual) anos. Estávamos naquela fase da transição para adolescência, quando a sexualidade começa a se tornar mais latente, e o interesse pelo sexo se torna o suficientemente grande para querer informações mais concretas sobre ele.

Apesar de já ter noção de minha inclinação precoce pelo sexo feminino, o sexo masculino também me parecia atraente, e creio que naquela idade, parecia mais fácil de lidar. Não pela "simplicidade" maior que o sexo masculino parece possuir, mas porque é a informação que socam em sua cabeça com maior intensidade. Eu sou uma garota, logo deveria me interessar pelos garotos, e por ser uma garota, aparentemente só os garotos se interessariam por mim. É uma questão social até certo ponto. Eu realmente me interessava pelos garotos também.

Passávamos sempre em frente à banca daquela mulher, e ela tinha algumas revistas de homens nus expostas. Um dia lembramos do fato, e pensamos em comprar uma. Nervosismo, sensação de estar fazendo algo proibido. Coragem. Fomos à tal banca e ficamos um tempo a rodear, sem nada dizer, esperando o momento, ou a coragem que nos faria apontar o dedo para uma das revistas e dizer:

- Eu gostaria de comprar aquela revista.

A coragem demorava a despontar e a mulher foi mais rápida que nós.

- Se vocês estiverem pensando em comprar revista de homem pelado, podem ir tirando o cavalinho da chuva. (disse assim mesmo, com esse "dito popular" que me irrita até não poder mais)

Nós tomamos um choque e dissemos que não, não queríamos revistas de homens pelados, e nos mostramos deveras ofendidas por ela ter atribuído a nós um desejo tão frívolo. Ela estava certa, mas não podíamos dar a ela a ótima sensação sádica que nossa admissão daria. Fomos embora, nos perguntando alto, representando, como ela podia haver dito uma coisa dessas para nós.

Depois disso, muitos anos passaram-se e já encontrei-a diversas vezes na rua. Hoje eu tenho mais do que os dezoito anos que me possibilitariam a compra da revista mas não mais me importa. Agora eu já vi um pênis. Alguns. Ao vivo, ainda!

Tudo isso passou pela minha cabeça quando a vi, ao lado da velha com a qual troquei um olhar profundo, segurando uma alça de coleira, e na extremidade dela havia um cachorrinho pequeno, peladinho (como os homens da revista que ela impediu-me de comprar). Ela sob um guarda-chuva rosado (ou a blusa dela era rosada? Ou a boca dela?) e o cachorrinho a tomar as grandes gotas d'águas que caiam do céu nas costas magrelinhas.

Passamos lado a lado, eu, com o beck ainda aceso nas mãos e ela fez questão de exlamar alto:

- Que cheiro de maconha!

E a velha ao lado dela deve ter perguntado algo do tipo "como você sabe?" porque ela respondeu com aquela convicção dos moralistas hipócritas:

- Eu conheço!

Eu olhei para trás e elas pareciam não estar mais dando atenção à minha pessoa. Voltei a subir, para ficar parada no mesmo lugar onde estava antes da aparição das duas múmias, traguei mais algumas vezes e apaguei.

Quando virei para a avenida principal, fui pensando na nova fase que a minha vida iria atravessar agora, estudando as coisas que me interessavam, (eu gosto tanto de algumas coisas que vão me dar resultado e continuo insistindo em dispender eu tempo em coisas que a cada dia que passa me dão mostra de não valer a pena!!), de repente virando um ser a cada dia mais solitário por essa atenção que eu vou direcionar apenas para mim e o meu desenvolver, independente de qualquer outra pessoa, pois não se pode esperar nada nenhuma pessoa que não você mesmo. E ainda assim, depende duplamente de você.

Uma mulher, de repente atravessou meu caminho, andando na diagonal para a direita segurando um guarda-chuva. E de repente, veio outra atravessando em sentido inverso à primeira, também com um guarda-chuva. Era frevo? Não. Eram duas malditas mulheres entre as milhares de malditas pessoas que usam guarda-chuva.

Estávamos caminhado sob uma proteção, e elas achavam que tinham o direito de dançar na minha frente, enquanto eu não queria assistir, só queria passar! E as pessoas-com-guarda-chuvas me irritam também quando querem andar sob uma proteção se estão a usar guarda-chuvas. Deixe a proteção para as pessoas-sem-guarda-chuva se vocês querem andar por aí com essa arma urbana. Quando estava a ultrapassar a segunda mulher, ela deu mais um de seus passinhos para a esquerda, basicamente postando-se à minha frente, e eu dei um outro passinho para a esquerda, entrando na dança, e levantei um dos braços, de forma que o guarda-chuva bateu apenas na minha mão e não na minha cabeça, como teria sido caso eu não houvesse tomado essa inciativa.

Eu exclamei algo, ou grunhi, não me lembro, mas acredito que deixei a mulher estupefata pela cara que ela apresentava quando a olhei.

Logo a frente, uma loja, berrando um sertanejo. A careta que eu fiz ao passar em frente da loja só podia significar que eu estava passando mal, muito mal, por estar escutando semelhante agressão musical.

Atravessei a rua, lépida como sempre e a chuva nãe cessava. Nova ironia: a mercadoria que havia na barraca que estava na calçada, onde poderia facilmente abrigar-me, eram bananas. Odeio bananas. Olhei para elas e ri. A ironia anda me perseguindo.

Na volta, quando ia atravessar a rua, um carinha passou correndo num carro, o sinal verde para os pedestres, bem rente à calçada e se o velhinho que estava a minha frente fosse mais distraído, teria sido pego pelo carro. Atravessei um pouco atrás do velho e murmurei:

- Filho da putinha.

O velho virou-se calmamente, para ver quem havia proferido tais palavras por causa da situação: eu. Mal olhei para ele, e continuei a andar. Me sentindo totalmente "freak" e sabendo que tende a aumentar essa sensação. Me sentindo estranha. Sendo estranha.

A dor continua. Sinto cólicas. Nessa época fico mais estranha ainda. Fazendo questão de tudo fazer, indepententemente dos julgamentos em relação ao que é socialmente aceitável. Cuspi na rua. Sim, cuspi na rua, e daí? Por que não há mais escarradeiras nas ruas?

Fumei na esperança de que a dor passasse, afinal, muitas vezes funcionou, santo remédio! Mas dessa vez parece que não surtiu efeito. Que se foda. Aceito o prêmio de consolação que foi o estar mais bem louca do que já sou.