Nunca fiquei tanto tempo sem escrever, aqui ou em qualquer outra 'superfície'.
Durante 4 meses vivi de anotações mentais, vivi e tornei a viver.
Casei, mudei, viajei, pari. Fatos para uma vida toda, em muito pouco tempo de vida.
Nunca pensei seriamente em casamento e muitas vezes intuí que não fosse casar em tempo algum. Não se pode confiar em todas as sensações.
Tenho uma particularidade: nunca escrevo sobre os grandes fatos, talvez por querer manter a imagem deles apenas na memória, como se fossem segredos ou então coisas que eu não quero dividir.
Desta vez é diferente, não sei dizer ao certo o porque, mas é.
É um conjunto tão grande de emoções distintas que não posso guardar apenas em mim, preciso de um retrato em palavras dessas sensações.
Fase IV
De trás para frente? Têm agora uma bela menina dormindo no quarto ao lado, linda de matar, fofa, imaginem todos os mais belos adjetivos. Ela completou hoje/ontem dois meses inteirinhos de vida fora do útero. Ela sofre de frio, fome, insegurança e desconforto. Deixou um mundo interno onde tinha tudo sem precisar se expressar para consegui-lo: a temperatura se ajustava, a comida chegava a todo momento, se sentia protegida e nunca estava com a fralda molhada. Mas mesmo assim, ela luta diariamente para se adaptar ao mundo exterior, se desenvolve e começa a perceber que frequentemente será amparada.
No mundo, qualquer que fosse, não existe coisa mais impressionante do que a Sofia, o biquinho de Sofia, o sorrisinho de Sofia. Sofia.
Desde o primeiro dia de vida dela eu queria ter visto as coisas assim, mas não o foi. Não se pode cobrar das mães que o amor seja algo inerente à qualquer dor que ela possa sentir. Claro que a amava, na verdade, a amava desde o dia que a descobri dentro de mim, porém quando ela saiu, as coisas não se tornaram mais intensas: isso foi algo que veio com o passar do tempo.
Quando nasce o bebê, não nasce uma mãe completa. A mãe simplesmente se desenvolve, assim como se passa com o bebê que logo vira criança para depois passar por outras fases. E assim foi, a cada dia aprendo a ser mãe e a descobrir o que é o verdadeiro amor materno.
O parto foi uma coisa entre o fascinante e o deplorável. No meu caso, foi a vitória e a derrota na mesma situação. Desejei intensamente que se passasse de maneira natural, lutei com todas as minhas forças para que assim fosse e perdi essa batalha. Lá se foi o sonho de ver o bebê sair de dentro de mim sem a necessidade de camadas e mais camadas de cortes insensíveis. Simplesmente aconteceu de nem saber o momento em que minha filha saiu de mim, do mesmo jeito que não soube o momento em que ela entrou.
E ter sido a última na sala a ver a cara da pessoa que eu carreguei e alimentei? E não ter sido a primeira a tê-la nos braços depois de meses de um contato inexplicável? Isso foi bruto.
A vitória foi ver minha filhinha viva e perfeita e a derrota foi ter uma parte de meu sonho morto a bisturis.
Foi seco, incrivelmente seco, como a pessoa que imagina que se tocam sinos no ouvido no momento do orgasmo e depois descobre que não é bem assim. Me senti afastada, longe, com nossos laços desatados. Me senti ultrajada. Senti como se fosse uma máquina a quem abrem para consertar, ou um robô de quem abrem a portinhola e retiram uma parte.
A recuperação desse processo, tanto física como emocional, foi um verdadeiro pesadelo, algo a que nunca mais quero passar.
Mas, e sempre tem o mas, principalmente quando se trata de mim, acredito que um dia vou superar este ultraje. E principalmente, vou superar esse trauma pelo amor que sinto por ela, que já sentia por ela, e que jamais vou deixar de sentir. E que a cada dia que passa e o que passou se afasta ainda mais, aumenta inexoravelmente.
Sobre amor: não posso deixar de registrar o apoio do meu marido no momento crucial, não poderia ter tido melhor companhia.
E a ajuda da minha família nos dias que se sucederam à cirurgia. Amor.
Durante 4 meses vivi de anotações mentais, vivi e tornei a viver.
Casei, mudei, viajei, pari. Fatos para uma vida toda, em muito pouco tempo de vida.
Nunca pensei seriamente em casamento e muitas vezes intuí que não fosse casar em tempo algum. Não se pode confiar em todas as sensações.
Tenho uma particularidade: nunca escrevo sobre os grandes fatos, talvez por querer manter a imagem deles apenas na memória, como se fossem segredos ou então coisas que eu não quero dividir.
Desta vez é diferente, não sei dizer ao certo o porque, mas é.
É um conjunto tão grande de emoções distintas que não posso guardar apenas em mim, preciso de um retrato em palavras dessas sensações.
Fase IV
De trás para frente? Têm agora uma bela menina dormindo no quarto ao lado, linda de matar, fofa, imaginem todos os mais belos adjetivos. Ela completou hoje/ontem dois meses inteirinhos de vida fora do útero. Ela sofre de frio, fome, insegurança e desconforto. Deixou um mundo interno onde tinha tudo sem precisar se expressar para consegui-lo: a temperatura se ajustava, a comida chegava a todo momento, se sentia protegida e nunca estava com a fralda molhada. Mas mesmo assim, ela luta diariamente para se adaptar ao mundo exterior, se desenvolve e começa a perceber que frequentemente será amparada.
No mundo, qualquer que fosse, não existe coisa mais impressionante do que a Sofia, o biquinho de Sofia, o sorrisinho de Sofia. Sofia.
Desde o primeiro dia de vida dela eu queria ter visto as coisas assim, mas não o foi. Não se pode cobrar das mães que o amor seja algo inerente à qualquer dor que ela possa sentir. Claro que a amava, na verdade, a amava desde o dia que a descobri dentro de mim, porém quando ela saiu, as coisas não se tornaram mais intensas: isso foi algo que veio com o passar do tempo.
Quando nasce o bebê, não nasce uma mãe completa. A mãe simplesmente se desenvolve, assim como se passa com o bebê que logo vira criança para depois passar por outras fases. E assim foi, a cada dia aprendo a ser mãe e a descobrir o que é o verdadeiro amor materno.
O parto foi uma coisa entre o fascinante e o deplorável. No meu caso, foi a vitória e a derrota na mesma situação. Desejei intensamente que se passasse de maneira natural, lutei com todas as minhas forças para que assim fosse e perdi essa batalha. Lá se foi o sonho de ver o bebê sair de dentro de mim sem a necessidade de camadas e mais camadas de cortes insensíveis. Simplesmente aconteceu de nem saber o momento em que minha filha saiu de mim, do mesmo jeito que não soube o momento em que ela entrou.
E ter sido a última na sala a ver a cara da pessoa que eu carreguei e alimentei? E não ter sido a primeira a tê-la nos braços depois de meses de um contato inexplicável? Isso foi bruto.
A vitória foi ver minha filhinha viva e perfeita e a derrota foi ter uma parte de meu sonho morto a bisturis.
Foi seco, incrivelmente seco, como a pessoa que imagina que se tocam sinos no ouvido no momento do orgasmo e depois descobre que não é bem assim. Me senti afastada, longe, com nossos laços desatados. Me senti ultrajada. Senti como se fosse uma máquina a quem abrem para consertar, ou um robô de quem abrem a portinhola e retiram uma parte.
A recuperação desse processo, tanto física como emocional, foi um verdadeiro pesadelo, algo a que nunca mais quero passar.
Mas, e sempre tem o mas, principalmente quando se trata de mim, acredito que um dia vou superar este ultraje. E principalmente, vou superar esse trauma pelo amor que sinto por ela, que já sentia por ela, e que jamais vou deixar de sentir. E que a cada dia que passa e o que passou se afasta ainda mais, aumenta inexoravelmente.
Sobre amor: não posso deixar de registrar o apoio do meu marido no momento crucial, não poderia ter tido melhor companhia.
E a ajuda da minha família nos dias que se sucederam à cirurgia. Amor.
